quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O drama musical e a ópera no século XIX – Itália

imagesDiferente da França e dos países do Norte da Europa, a Itália não foi muito sensível às experiências novas e radicais. As seduções do movimento romântico, no tocante à ópera, em quase nada influenciaram seus compositores. Fortemente enraizada na vida da nação, a ópera italiana do século XIX descendia de uma sólida tradição. Muito lentamente, os elementos românticos foram impregnando sua ópera e não ao mesmo tempo como na Alemanha e França.
A diferença entre a "ópera séria" e "opera buffa" foi mantida com bastante clareza até quase metade do século e os primeiros sinais de mudanças só vieram acontecer na "ópera séria". Os princípios que haviam orientado Gluck já estavam enunciados num ensaio sobre ópera de Francesco Algarotti (1712-1764) – "Saggio Sopra L'Opera in Musica" (1755) – sendo que, muitos deles, tinham sido postos em prática por Niccolo Jommelli nas óperas que escreveu para Parma, Stuttgart e Mannheim, centros que assimilavam a cultura francesa, estando, por isso, em condições de acolher uma combinação de "tragédia lyrique" e "ópera séria".
Johann Simon Mayr (1763-1845) foi o fundador da “ópera séria” italiana. Alemão de nascimento que, assim como seu antecessor Hasse, passou a maior parte da vida na Itália, conseguiu aceitação geral, através das suas obras, para muitas mudanças que Niccolo Jommelli defendera na geração anterior.
Com um dom invulgar para a melodia e também efeitos cênicos, Giacchino Rossini foi o principal compositor italiano do século XIX. Entre seus 18 e 30 anos de idade, Rossini compôs trinta e duas óperas, duas oratórias, dozes cantatas, duas sinfonias, e outras obras instrumentais. Das “óperas sérias”, temos "Tancredi" (Veneza, 1813), "Otello" (Nápoles, 1816) e "La Donna del Lago" (Nápoles, 1819). Quanto à “opéra comique”, onde Rossini se sentia mais à vontade, temos "La Scala di Seta" (A Escada de Seda – Veneza, 1812); "L'Italiana in Algieri" (A Italiana em Argel – Veneza 1813); "La Cenerentola" (A Cinderela – Roma,1817) e "La Gazza Ladra" (A Pega Ladra – Milão, 1817). "Il Barbiere di Siviglia" (O Barbeiro de Sevilha – Roma, 1816) figura entre os maiores exemplos de “opéra comique” italiana.
Em Veneza, após um pequeno fracasso de sua “ópera séria”, "Semiramide" no ano de 1823, Rossini aceita uma convite para ir a Londres e, depois, em 1824, instala-se em Paris. Em Paris, escreveu novas versões de duas das suas óperas, adaptando-as ao gosto francês e uma “opéra comique”, "Le Comte Ory" (1828) além da sua grande ópera "Guillaume Tell", sendo esta, a que mais se aproxima do romantismo.
Gaetano Maria Donizetti (1797-1848), discípulo de Johann Simon Mayr, foi um dos mais prolíficos compositores italianos da segunda metade do século XIX. Além de 70 óperas, compôs várias sinfonias, oratórias, cantatas, música de câmara, música sacra e uma centena de canções. Entre suas “óperas sérias” estão "Lucrezia Borgia" (1833); "Lucia di Lammermoor" (1835) e "Linda di Chamounix" (Viena, 1842). Na "opéra comique", "La fille du Régiment" (A Filha do Regimento – Paris, 1840) e nas “operas buffas”, "L'Elisir d'Amore" (O Elixir do Amor – 1832) e "Don Pasquale" (1843).
Vicenzo Bellini (1801-1835), considerado como o aristocrata deste período pelo seu estilo, que é de um lirismo extremamente requintado, escreveu dez óperas, todas sérias, e as mais importantes são "La Sonnambula” (1831); "Norma" (1831) e "I Puritani e I Cavalleri" (Os Puritanos e os Cavaleiros – Paris, 1835).
Nos cinquenta anos que se seguiram às óperas de Donizetti, podemos resumir a história da música italiana, em especial a ópera, a Guiseppe Verdi. Escreveu vinte e seis óperas, a primeira em 1839 e a última em 1893. Sua vida criadora pode ser dividida em três fases: a primeira culmina em "Il Trovatore" e "La Traviata" (1887) depois de "Nabucco" (1842), "I Lombardi" (1843), "Giovanna d'Arco" (1845) e "La Battaglia di Legano" (1849); sua segunda fase com "Aida" (1871) e a terceira fase "Otelo" (1887) e "Falstaff" (1893). Com exceção de "Falstaff" todas suas óperas são sérias. Na sua maioria, os temas foram adaptados pelos libretistas a partir de textos de autores romântico. De Schiller ("Giovanna d'Arco", "I Masnadieri","Luisa Miller","Don Carlos"); de Vítor Hugo ("Ernani" e "Rigoletto"); de Dumas Filho ("La Traviata"); de Byron ("I Due Foscari","Il Corsaro"); de Scribe ("Les Vêpres Siciliennes", "Un Ballo in Maschera"); de dramaturgos espanhóis ("Il Trovatore" ,"La Forza del Destino", "Simon Boccanegra"); de Shakespeare ("Macbeth"). "Aida" teve seu argumento desenvolvido a partir de um enredo esboçado por um egiptólogo francês, A.F.F.Mariette, quando foi encomendada a Verdi.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O drama musical e a ópera no século XIX - França

óperaCombinando as influências de Gluck, da Revolução Francesa e do Império Napoleônico, Paris transforma-se na capital da Europa na primeira metade do século XIX, tendo-se desenvolvido, ali, um determinado tipo de ópera séria, de que é exemplo, “La Vestale” (A Vestal-1807) de Spontini.
O compositor, Gasparto Spontini (1774-1851) um italiano que se radicara em Paris em 1803 e veio, mais tarde, a partir de 1820, a fazer uma segunda carreira como diretor musical da corte de Berlim, era o músico preferido da imperatriz Josefina. Em “La Vestale”, Spontini conjugou o caráter heroico das últimas óperas de Gluck com uma forte tensão dramática dos enredos de libertação, exprimindo esta atmosfera num solene e aparatoso estilo solístico, coral e orquestral. Seus mais importantes confrades em Paris foram Étiene Nicolas Méhul (1763-1817) recordado pela ópera bíblica "Joseph" (1807) e Luigi Cherubini, cuja ópera "Le Deux Jounées" (Os Dois Dias - 1800) e em alemão, "Der Wasserträger" (O Aguadeiro), foi o modelo no qual se inspirou Beethoven para compor seu "Fidélio".
A partir de 1820, com a ascensão de uma classe média numerosa e mais influente, surge um novo tipo de ópera destinado a cativar o público que enchia os teatros de ópera. Os chefes desta escola da "grande ópera" foram o libretista Eugène Scribe (1791-1861), o compositor Giacomo Meyerbeer (1791-1864) e o diretor de ópera de Paris, Louís Véron (1798-1867). Duas óperas de Meyerbeer fixaram este estilo: "Robert, le Diable” (“Roberto, o Diabo” - 1831) e "Les Huguenots” (1836).
Desde o tempo de Lully, segundo a tendência dominante na França, a grande ópera dava tanta importância ao espetáculo como à música. Os libretos eram concebidos a explorar todas as oportunidades possíveis de introduzir bailados, coros e cenas de multidão. Meyerbeer tinha a capacidade para encenar multidões, cerimônias e confrontos públicos, como no caso das últimas cenas do ato II de "Les Huguenots".
Em meados de 1830, entre os compositores mais importantes, vale citar nomes como:
– Aubert com "La Muette de Portici", ("A Rapariga Muda de Portici" conhecida como "Masaniello” - 1828); – Rossini ("Guillaume Tell” - 1829); – Jacques Fromental Halévy (1799-1862) cuja obra "La Juive" (“A Judia” - 1835) sobreviveu às obras de Meyerbeer.
“La Juive” e “Guillaume Tell” são os melhores exemplos de “grande ópera” desse período.
Este ideal francês da grande ópera sobreviveu ao longo de todo o século XIX, vindo a influenciar as obras de Bellini (I Puritani), Verdi (Les Vêpres Siciliennes, Aída) e Wagner (Rienzi) sendo esta um perfeito exemplo de grande ópera. Determinadas características do gênero são, também, evidentes em algumas das suas obras mais tardias, como em "Tanhäuser", "Lohengrin" e "O Crepúsculo dos Deuses".
A tradição da grande ópera subsiste ainda no século XX em obras como "Christophe Colomb", de Milhaud, e "Antônio e Cleópatra" de Barker.
A par da grande ópera, na França, a ópera cômica prosseguiu durante o período romântico. A diferença técnica entre ambas era que na cômica utilizava-se o diálogo falado em vez do recitativo, tinha menos pretensões do que a grande ópera, menos cantores e instrumentistas e escrita numa linguagem musical mais simples. Em meados de 1860, surgiu em Paris, um novo gênero, a ópera bouffe (não confundir com a ópera buffa italiana do século XVIII), com especial ênfase aos elementos espirituosos e satíricos da ópera cômica. Seu fundador foi Jacques Offenbach (1819-1880) com "Orphée aux Enfers" (“Orfeu nos Infernos” - 1858) e "La Belle Hélène” (“A Bela Helena”). As obras de Offenbach influenciaram a evolução da ópera cômica em outros países como as operetas de Gilbert e Sullivan na Inglaterra (“The Mikado”, 1885) e as de uma escola vienense cujo representante é Johann Strauss, em "Die Fledermaus" (“O Morcego” - 1874).
Entre o meio caminho entre a ópera cômica e a grande ópera, surge a ópera lírica: são dramas ou fantasias românticas e as proporções são geralmente mais amplas do que as da ópera cômica, mas não tão majestosas como as da grande ópera típica. Entre elas está "Mignon" (1866) de Ambroise Thomas (1811-1896), mas, a mais famosa deste gênero é o "Fausto" de Gounod, estreado em 1859 como ópera cômica (com diálogo falado) tendo, o compositor, posteriormente, dado forma como hoje é conhecida. Entre outras obras cênicas de Gounod contam-se a ópera "Romeu e Julieta" (1867) e entre seus seguidores está Camille Saint-Saëns (1835-1921) com a ópera bíblica "Samson et Dalila" (1877).
Estreada em Paris em 1875, "Carmen" de George Bizet (1838-1875) foi um marco importante na história da ópera francesa. Tal qual a versão original de "Fausto", "Carmen" foi classificada como ópera cômica, porque continha diálogos falados (mais tarde musicados em recitativo por outro compositor). O fato da denominação “cômica” para este drama sombrio revela, pura e simplesmente, que nessa época a distinção entre ópera cômica passara a ser, apenas, de ordem técnica.

domingo, 15 de setembro de 2013

A Música Escandinava e Edvard Grieg

griegTalvez, a música popular escandinava figure entre as mais velhas da Europa, mas, apesar disso, pouca música ultrapassou as fronteiras da Escandinávia até o século XIX. Contemporâneo de Händel, com quem se parece bastante no estilo, Johan Helmich Roman viveu na Suécia, entre 1694 e 1758 e foi um compositor barroco, considerado "pai da música sueca". Na Dinamarca, a vida musical tinha uma forte ligação com a música alemã: O grande Diderik (Dietrich – em alemão) Buxtehude, que Bach conheceu, era dinamarquês de origem, ao passo que o Hino Nacional da Dinamarca, foi escrito por um alemão, Friedrich Kuhlau, que viveu em Copenhague e ali, no tempo de Beethoven, escreveu inúmeras óperas.
No Romantismo, a Escandinávia produziu interessantes personalidades musicais: o sueco Franz Adolf Berwald (1796-1868), escreveu nove sinfonias ao estilo de Beethoven; na Dinamarca, Johann Peter Emil Hartmann (1805-1900) escreveu peças para teatro, cantatas e música sinfônica no estilo romântico; Niels W. Gade (1817-1890), genro de Hartmann, tornou-se célebre na Europa. Seu nome aparece nos anais do Gewandhaus de Leipzig, onde exerceu por longos anos, a atividade de regente, ao lado de Mendelssohnn; e Lange-Müller (1850-1926) que se tornou bastante popular com uma comédia de lenda (Era uma vez ) e muitas canções.
Concentrando-se numa única figura do século XIX, a fama musical da Escandinávia vem cair sobre Edvard Grieg (1843-1907), representante máximo do nacionalismo romântico, nascido em Bergen, cidade da Noruega. Em sua música há o romantismo daquelas regiões solitárias, dos fiordes, dos cumes de neve e todas as lendas de deuses e heróis.
Sua principal obra é a música para o drama de Henrik Ibsen, a Suíte Nº 1 Op.46 e a Suíte Nº 2 Op.55, "Peer Gynt". Alguns trechos de melodia como "A Morte de Ase", "Dança de Anitra" e "Canção de Solvejg" são conhecidas em todo o mundo. Famoso, também, é seu Concerto para Piano em Lá menor Op.16 em três movimentos: Allegro molto moderato (Lá menor); Adagio (Ré bemol maior); Allegro moderato molto e marcato - Quasi presto - Andante maestoso (Lá menor → Fá maior → Lá menor → Lá maior). Bastante, conhecidas são, também, suas sonatas para violino e piano escritas entre 1865 e 1887: Violin Sonata Nº 1 em Fá maior, Op. 8; Violin Sonata Nº 2 em Sol maior, Op. 13; Violin Sonata Nº 3 em Dó menor, Op. 45 .
Entre outras obras estão: "Quatro Danças Sinfônicas" Op. 64, mais tarde arranjadas para orquestra; "Sonata para Violoncelo" Op.36 em Lá menor; "Quarteto para Cordas" em sol menor Op.27; "Suíte Lírica" Op.54 para orquestra e "Duas Elegíacas Melodias" Op.34 para cordas.
Grieg fundou, em 1871, uma sociedade de música de grande importância em Cristiânia (Oslo). O governo da Noruega concedeu-lhe uma pensão vitalícia que lhe permitiu passar seus últimos anos, inteiramente dedicado às suas composições, em sua cidade natal de Bergen, onde veio a falecer em setembro de 1907.